Dez anos se passaram e você ainda é a razão do post. Aposto no
mínimo mais 3 anos pra você achar esta carta. Não descarto também que a saudade
possa não lhe rondar mais, e assim não haverá curiosidade em procurar sobre nós.
Contando com a sorte de que estejamos longe, em tempo e espaço, rio da sua falta de crença na minha força de vontade, perspicácia e hipocrisia. Desde aquele beijo eudiziaseunome nãomeabandonejamais ironicamente abençoado por aquele céu azul eu percebi que não seria justo lhe fazer sofrer novamente. Voltei sempre que me pediu. Me submeti a uma morte anunciada. Engoli meu orgulho em doses cavalares de veneno para que você saísse como saiu, por vontade e bem. Fácil não foi, nenhum dia sem sua boca é fácil, e às vezes sucumbi à saudade, você bem sabe.
Escrevo agora
porque estou em paz. E porque liguei o rádio em uma estação
qualquer e Cássia Eller disse “se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre sempre acaba".
Eu não queria ter me separado de você quando eramos adolescentes. Sonhava com o nosso casamento embalado por um piano branco. Nos perdemos, contudo, e afastei de mim qualquer vontade de “pra sempre”.
Eu não queria ter me separado de você quando eramos adolescentes. Sonhava com o nosso casamento embalado por um piano branco. Nos perdemos, contudo, e afastei de mim qualquer vontade de “pra sempre”.
No último 31 de
dezembro, esperei sua ligação até o fim do dia primeiro. Estava decidida, e
disso você não faz ideia, a largar ele pra ficar com você se me dissesse "te
quero na minha vida". Você ligou tarde, dias depois, e o ano já tinha se
desenhado. Em junho, quando nos reencontramos, talvez eu tivesse ido contigo
pra qualquer canto do mundo se tivesse me chamado logo, quisesse e decidisse assim. Teria 10 filhos nossos
e cantaria para você todos os dias. Isso com certeza.
Fui sua por
completo, sem dúvida ou exagero. Sou tua, eu
disse naquela sexta em frente ao mar, com você mergulhado na água e no medo. Fui só sua e apesar do pouco tempo de duração não fui menos do
que se tivesse anel no dedo e anos de amanheceres. Estava escrito. Sobre esses
mistérios não tento entender, julgar ou condenar. Mas segui, como você pediu, e ao terminar essas palavras (palavras com as quais
você implica tanto sem saber que para você nunca foram vazias), vou virar a página, tirar o sal do corpo.
Por favor, não deixe de ler até o final por conta da minha mal
escolhida conjunção na oração anterior.
"Você está
presa aos meus ossos"
Estou.
Um dia, talvez
no mesmo dia em que você descubra Beatles, eu vou lhe desculpar pelo atraso de
9 anos, por não ter ligado no réveillon, pela confusão nos sentimentos, por
ter roubado a maioria das minhas músicas preferidas, por ter desligado o som bem
na hora de "Love Bites" naquela sexta, por ter saído quando mergulhei, por
não ter me conhecido completamente (acho que faltou bem pouco) e por não ter me
merecido. Como estamos longe posso te culpar e desculpar.
Da mesma forma
que você me modificou há muitos anos atrás, fez de novo, só que com outro
sentido. A doçura que você me deu mudou meu olhar e me fez querer o “pra sempre”
de volta ao vocabulário. Quero me casar um dia, quero ser mãe.
Com sorte, seremos
amigos verdadeiros por toda a vida, sem deadline, idealismos ou medo, e aprenderemos a ler as figuras de pausa na
pauta como partes da música. E talvez eu entenda a música, que pode não ser uma ária de Bach mas um capricho
fraterno que toca baixinho e sempre.
PS* Virar a
página é fácil, esquecer não dá. Ainda mais com tantas canções sobre nós
espalhadas pelo mundo. O pra sempre existe pra gente.
